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Três décadas após o lançamento, Max Cavalera relembra a criação do disco, a gravação com os Xavante e o papel estratégico de Gloria Cavalera na consolidação de um dos álbuns mais influentes dos anos 1990

Max Cavalera relembra bastidores do disco e destaca o papel decisivo de Gloria Cavalera na realização do projeto

· 21/02/2026 · 22:20 · 4 min · 6,256
Três décadas após o lançamento, Max Cavalera relembra a criação do disco, a gravação com os Xavante e o papel estratégico de Gloria Cavalera na consolidação de um dos álbuns mais influentes dos anos 1990
Foto: Arquivo

O último dia 20 de fevereiro marcou oficialmente os trinta anos de Roots, obra que não apenas redefiniu os rumos do Sepultura, mas também alterou a própria cartografia estética do heavy metal na década de 1990. Lançado em 1996, o álbum permanece como um marco incontornável pela maneira como tensionou fronteiras culturais, incorporou elementos da música indígena brasileira e estabeleceu uma sonoridade que, à época, soava disruptiva até mesmo dentro do universo do metal extremo.

Produzido por Ross Robinson, nome associado ao surgimento de uma estética mais orgânica e visceral no rock pesado da década, Roots surge em um contexto de transformação. O metal vivia um período de questionamento identitário: o thrash tradicional perdia espaço, o grunge havia remodelado o mercado e novas vertentes experimentais começavam a emergir. Foi nesse cenário que o Sepultura decidiu não apenas se adaptar, mas propor uma ruptura conceitual.

A proposta de integrar percussões tribais, ritmos brasileiros e sonoridades ancestrais ao peso industrializado do metal não era um mero artifício estético. Tratava-se de um movimento consciente de afirmação cultural e de expansão de linguagem. A banda deixou de buscar exclusivamente referências no eixo Estados Unidos–Europa e voltou-se para suas próprias origens. Esse deslocamento simbólico reposicionou o Brasil dentro da geopolítica do metal mundial, não como periferia imitadora, mas como fonte ativa de inovação.

Em vídeo publicado recentemente, Max Cavalera relembrou os bastidores do álbum e dedicou a obra à sua esposa e empresária, Gloria Cavalera. O relato evidencia um aspecto frequentemente negligenciado na narrativa histórica da música pesada: a dimensão estratégica e logística que sustenta decisões artísticas ousadas. Segundo Max, a ideia de gravar com uma comunidade indígena nasceu durante o processo de composição, quase como uma intuição ou visão. Contudo, transformar essa intenção em realidade exigiu articulação institucional, negociação cultural e planejamento operacional rigoroso.

A gravação da faixa “Itsári” com o povo Xavante tornou-se um dos momentos mais emblemáticos do disco. A operação envolveu contato com lideranças indígenas, organização de deslocamentos até território tradicional e respeito a protocolos culturais específicos. Não se tratava de uma simples inserção sonora para efeito exótico, mas de uma colaboração registrada in loco, o que conferiu ao álbum uma densidade simbólica incomum dentro do gênero. Max relembra que a logística incluiu voos em aeronaves de pequeno porte e uma jornada complexa até a aldeia — um processo que só foi viabilizado graças à atuação direta de Gloria na coordenação dos contatos e na estruturação do projeto.

Ao analisar retrospectivamente, percebe-se que Roots não foi apenas um experimento musical. Ele antecipou tendências que se consolidariam nos anos seguintes, especialmente no chamado nu metal, cuja ênfase rítmica e abordagem percussiva encontram precedentes evidentes no trabalho do Sepultura. Além disso, o álbum ampliou o conceito de identidade sonora dentro do metal, demonstrando que tradição ancestral e modernidade agressiva não são categorias excludentes.

Do ponto de vista crítico, Roots também provocou divisões. Parte do público mais ortodoxo interpretou a mudança como um afastamento do thrash metal que consagrou a banda nos anos anteriores. Contudo, é precisamente essa disposição ao risco que explica a permanência histórica do álbum. Obras que não tensionam limites tendem a envelhecer rapidamente; Roots, ao contrário, consolidou-se como referência de reinvenção.

Três décadas depois, o disco continua a ser celebrado não apenas por sua relevância musical, mas por sua carga simbólica. Ele representa um momento em que uma banda brasileira assumiu protagonismo global sem renunciar à própria identidade cultural. Em um mercado historicamente centralizado, essa afirmação possui peso estrutural.

Ao convocar os fãs a celebrarem o álbum, Max reforça que o legado de Roots permanece vivo. O aniversário oficial já passou, mas o impacto da obra continua reverberando em novas gerações de músicos que enxergam na fusão entre tradição e peso uma possibilidade criativa legítima. Mais do que um marco temporal, os trinta anos de Roots reafirmam sua condição de divisor de águas — um álbum que não apenas refletiu seu tempo, mas ajudou a moldar o futuro do metal mundial.

Joás Sanct

Fundador do webcast GARAGE BAND, headbanger, produtor cultural, amante do 'underground', WEBDeveloper

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